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Nem proteção, nem cuidado: a criança na vitrine da disputa política

A defesa da maternidade na política é uma causa séria demais para ser transformada em vitrine de embate

Mariana Tripode
Por Mariana Tripode  - Advogada 6 Min Leitura
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Deputada Júlia Zanatta leva filha a ato político e gera debate sobre uso de crianças na disputa políticaImagem: Reprodução/Redes Sociais
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A presença de crianças no Parlamento pode e deve ser um símbolo de avanço pois demonstra que a política, historicamente construída como espaço masculino e hostil à maternidade, pode ser redesenhada para incluir e acolher as mulheres em todas as fases da vida. Representa a possibilidade concreta de conciliar cuidado e participação política, sinaliza que o trabalho legislativo pode conviver com a vida familiar e reforça a pauta urgente de políticas públicas de cuidado.

Encenação política e exploração simbólica

Mas o que se viu no episódio protagonizado pela deputada federal Júlia Zanatta não foi nada disso. Quando levou sua filha de quatro meses para uma ocupação do plenário da Câmara dos Deputados, uma ação de natureza combativa, planejada para tensionar o funcionamento da Casa, a parlamentar não reafirmou direitos maternos, nem fortaleceu a luta das mulheres. Transformou a presença da criança em parte de uma encenação política, inserindo a maternidade na lógica da performance e da exploração simbólica.

O ato não ocorreu em uma sessão rotineira, tampouco em um ambiente adaptado para a presença de bebês. Tratou-se de um espaço propositalmente carregado de conflito, gritos, aglomeração, clima de enfrentamento.

Blindagem e provocação 

Ninguém pode, de boa-fé, sustentar que esse seja o ambiente adequado para uma criança tão pequena, e menos ainda que isso represente a causa das mães trabalhadoras. Aqui, não estamos diante de uma mãe que precisou conciliar amamentação com o exercício do mandato; estamos diante de uma escolha política que colocou a imagem da filha como elemento visual de blindagem e provocação.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, é inequívoco ao estabelecer que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à dignidade e à convivência familiar e comunitária, colocando as crianças a salvo de toda forma de negligência, discriminação, violência, crueldade e opressão. O “melhor interesse da criança” não é um jargão jurídico vazio, é um princípio estruturante que deve orientar qualquer decisão que envolva crianças, sobretudo quando tomada por quem exerce função pública e, portanto, atua sob maior dever de exemplo.

Impacto midiático 

O que Júlia Zanatta fez foi subverter o sentido da pauta da maternidade. Ao invés de usar seu mandato para ampliar o debate sobre creches no Parlamento, licenças maternidade e paternidade justas, salas de amamentação e adaptações estruturais para mães trabalhadoras, optou por inserir sua filha em um ato de obstrução para gerar impacto midiático. Essa escolha nada tem a ver com a luta das mulheres; tem a ver com o uso oportunista da imagem de uma criança para blindar politicamente um gesto que, sozinho, poderia ser criticado.

Ferramentas de disputa

Esse tipo de instrumentalização não é inédito. A história política brasileira está repleta de exemplos em que símbolos de “família” e “crianças” foram mobilizados para suavizar agendas radicais, legitimar posições extremas ou deslocar o foco do debate. É um recurso retórico poderoso, quem se opõe, corre o risco de ser acusado de atacar uma mãe ou uma criança; quem critica, é acusado de não compreender o “direito” à maternidade. Mas não nos enganemos, pois a luta das mulheres por espaço na política não pode ser confundida com atos que expõem crianças como ferramentas de disputa.

Quando reduziu a maternidade a um recurso performático, perdeu-se o sentido político do cuidado como prática emancipatória. Cuidado não é adereço para palco; é compromisso com o bem-estar de quem é mais vulnerável. E se há algo que a luta das mulheres ensinou, é que direitos não se afirmam pela exploração de quem deve ser protegido.

Por isso, este episódio exige crítica veemente. Não se trata de discutir se uma mãe pode ou não levar seu bebê ao Parlamento que pode, e deve ter esse direito protegido. Trata-se de afirmar, sem meias-palavras, que levar uma criança a um ato político de enfrentamento, transformando-a em parte de uma narrativa calculada para provocar e confrontar, é uma escolha incompatível com o princípio do melhor interesse da criança. Não há “emancipação” nisso. Há, sim, oportunismo.

E é aqui que precisamos ser claros de que quando a política usa bebês como escudos simbólicos, não é a infância que está sendo protegida, é a conveniência política que está sendo blindada. Essa prática não avança nenhuma pauta de gênero, não promove igualdade, não melhora a vida de mães e filhos. Apenas fragiliza o pacto ético que deveria impedir que crianças sejam expostas à lógica da disputa. A defesa da maternidade na política é uma causa séria demais para ser transformada em vitrine de embate, e quem o faz não está ao lado das mulheres, mas sim do próprio projeto de poder.

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Posted by Mariana Tripode Advogada
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Advogada formada pela Universidade de Mogi das Cruzes /SP desde 2012. Especialista em Direito da Mulher e Direito de Gênero pela escola da Magistratura do Distrito Federal, pós-graduanda em Direitos das Mulheres e Práticas para uma Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, pós-graduanda em Ciências Criminais e Interseccionalidades pela Verbo Jurídico. Foi Presidente da Comissão da Mulher da ABA Brasília – Associação Brasileira dos Advogados, idealizadora do primeiro escritório de Advocacia Para Mulheres no Distrito Federal e CEO da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres-EBDM.
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