Peço licença para tratar hoje de um tema, no mínimo, curioso: um casal famoso divulga que gastou dez mil reais em livros que seriam usados para decorar sua nova casa. Ao pensar sobre o assunto, seria possível dizer que muitos são os que usam livros em específico para decorar determinados ambientes: livros que fazem parte da história das pessoas que ali vivem; livros que foram ganhos e trazem consigo valor sentimental ou mesmo livros que são de autores de sua preferência. Entretanto a divulgação dessa escolha da forma como feita traz consigo inúmeras possibilidades de reflexão, a começar sobre a percepção do livro como objeto a não ser manuseado, sentido, lido.
Livros de decoração, leitura em extinção
A esse respeito, vale pensar que a leitura de livros pressupõe a coautoria. É na relação autor/leitor que o livro (quais sejam as ideias que propaga) toma sentido. Guardado em uma estante ou sobre uma mesa qualquer, perde a possibilidade de ganhar vida e reverberar histórias, visões de mundo, consensos e dissensos. Quando se diz que a motivação para a compra de livros foi simplesmente a decoração de uma casa, reconhece-se a incapacidade de perceber a importância do livro como objeto-ferramenta de leitura e de aprendizagem, numa desapropriação de seu valor intrínseco. Aqui prevalece a dimensão do ter que se sobrepõe ao ser na medida em que se reduz a estética à mera aparência, extirpando-lhe o processo de fruição. Fico também a imaginar como se sentiria o autor de um desses livros que se tornaram irreversivelmente, neste caso, um representante fiel da futilidade humana.
Brasil perde quase 6,7 milhões de leitores
A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada em 2024, pelo Instituto Pró-Livro (IPL), aponta que, no Brasil, a quantidade de pessoas que não leem é maior do que a de leitores. Os dados são alarmantes e revelam uma perda de quase 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Entre os participantes não leitores, 34% afirmam não tem tempo para ler, 28% dizem que não gostam de ler, 14% asseguram não ter paciência para a leitura e 16% são analfabetos. Retornando ao caso que motivou essa coluna, temos dois influenciadores digitais do meio artístico apresentando os livros como meros objetos de decoração. Como podemos reverter estes números se não assumirmos, como sociedade que é tempo de educar melhor as nossas crianças e jovens? Como mobilizar as pessoas em torno da necessidade premente de leitura e de aprendizagem?
A leitura estabelece relações
Por outro lado, dentre participantes que se identificam como leitores, 17% foram influenciados a gostar de ler desde pequenos por algum membro de sua família, o que ratifica uma premissa muito antiga sobre os valores que internalizamos quando crianças, seja em casa ou na escola. É por meio da literatura infantil que nossas crianças têm contato com o mundo letrado de forma lúdica e simbólica, estabelecendo relações entre o que lê e o que vive ou observa em sua realidade. Estes podem ser indicativos de qual caminho trilhar: ler livros para os pequenos, leva-los a bibliotecas, dar-lhes livros de presente, adiar até os seis anos (pelo menos) o uso de celulares.




