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Começa com sangue: o Brasil ainda mata suas mulheres

Por trás de cada número há uma história interrompida, silenciada pela violência de gênero. Elas não foram embora. Foram tiradas de nós

Mariana Tripode
Por Mariana Tripode  - Advogada 4 Min Leitura
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Feminicídios escancaram a omissão do Estado e a falência da proteção institucional às mulheresImagem: Freepik
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O mês que deveria simbolizar o compromisso do Estado com a vida das mulheres começa, mais uma vez, com o rastro de sangue deixado pela negligência institucional e pela persistência da violência patriarcal. O Agosto Lilás criado para fortalecer a conscientização sobre a Lei Maria da Penha e o enfrentamento à violência doméstica inicia sob a marca brutal dos feminicídios que seguem acontecendo todos os dias no Brasil.

Mapa da Violência 

Nos primeiros sete meses de 2025, o país registrou uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, segundo levantamento de dados do Mapa da Violência. Só no estado de São Paulo, 29 feminicídios foram computados entre janeiro e maio, o maior número já registrado em um primeiro semestre desde que a tipificação foi incluída no Código Penal. Na Paraíba, foram 19 mulheres mortas apenas no primeiro semestre, o segundo pior índice da década. 

Vidas invisibilizadas

E isso sem contar os números ainda invisíveis: mulheres que morrem sem boletim de ocorrência, sem nome em estatísticas, sem comoção pública.

Por trás de cada número há uma história interrompida, uma mãe, filha, irmã ou companheira silenciada pela violência de gênero que ainda opera com impunidade. A maioria dessas mortes acontece dentro de casa, em contexto de separações, ameaças, controle ou relações marcadas por ciclos de agressão. Muitas dessas mulheres haviam denunciado. Algumas tinham medidas protetivas. Outras sequer conseguiram ser ouvidas.

O sistema de justiça, em muitos casos, não previne: assiste. E em outros, participa. Quando o Judiciário hesita em aplicar a Lei Maria da Penha. Quando o Ministério Público arquiva denúncias por “falta de provas” que jamais foram buscadas. Quando os tribunais impõem guarda compartilhada a mães que lutam para proteger os filhos de pais violentos. Quando se cobra das vítimas a coragem de denunciar, mas se nega a elas a dignidade de serem cridas.

Cresce o número de estupros no Brasil

Não é por acaso que os estupros continuam a acontecer a cada seis minutos no país. Em 2023, foram mais de 83 mil registros, número que cresce ano após ano. A maioria das vítimas? Mulheres entre 18 e 44 anos, vitimadas por homens que conheciam. A violência sexual também é estrutural, cotidiana e banalizada. Assim como a violência psicológica, a patrimonial, a institucional.

É preciso dizer, com todas as letras: o Brasil não está apenas falhando. O Brasil está permitindo. Quando a resposta do Estado é insuficiente, morosa ou revitimizadora, ela deixa de ser omissão e se torna cumplicidade.

Histórias interrompidas

O Agosto Lilás não pode ser reduzido a campanhas tímidas ou à cor dos prédios públicos. É preciso que ele seja um chamado à responsabilização. À revisão das práticas judiciais. À fiscalização dos protocolos de atendimento. À urgência de políticas públicas permanentes, não episódicas. A proteção das mulheres exige investimento, formação crítica dos operadores do Direito, escuta qualificada e compromisso institucional com a equidade de gênero.

Em um país onde o lar continua sendo o lugar mais perigoso para as mulheres, o símbolo do Agosto Lilás só terá sentido quando deixar de ser memória póstuma e se tornar, de fato, prevenção.

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Posted by Mariana Tripode Advogada
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Advogada formada pela Universidade de Mogi das Cruzes /SP desde 2012. Especialista em Direito da Mulher e Direito de Gênero pela escola da Magistratura do Distrito Federal, pós-graduanda em Direitos das Mulheres e Práticas para uma Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, pós-graduanda em Ciências Criminais e Interseccionalidades pela Verbo Jurídico. Foi Presidente da Comissão da Mulher da ABA Brasília – Associação Brasileira dos Advogados, idealizadora do primeiro escritório de Advocacia Para Mulheres no Distrito Federal e CEO da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres-EBDM.
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