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O crime em Itaperuna é um alerta sobre a saúde mental dos adolescentes

Jovem de 14 anos matou os pais e o irmão de 3 anos após ser impedido de viajar para encontrar uma namorada virtual

Danieli Aguiar
Por Danieli Aguiar 5 Min Leitura
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Família assassinada em Itaperuna (RJ), no sábado, 21 de junhoImagem: Reprodução
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O triplo homicídio cometido por um adolescente de 14 anos em Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro, no sábado, 21 de junho, levanta um alerta urgente sobre os riscos emocionais e sociais aos quais adolescentes estão cada vez mais expostos. O garoto matou o pai, a mãe e o irmão de 3 anos com a arma do pai, após ser proibido de viajar para encontrar uma namorada que conheceu online. O caso, mais do que uma tragédia familiar, traz à tona questões sérias sobre desenvolvimento emocional, vínculo familiar e sinais de sofrimento psíquico que muitas vezes passam despercebidos.

Segundo a Polícia Civil, o crime foi premeditado. O adolescente esperou os pais dormirem, atirou contra cada um deles e, em seguida, matou o irmão. Depois, arrastou os corpos até uma cisterna no quintal e permaneceu na casa por dias. Durante o depoimento, confessou o crime com aparente indiferença emocional e afirmou que faria tudo de novo.

As investigações também indicaram que o jovem tentou acessar recursos financeiros da família, pesquisando como sacar o FGTS de pessoas falecidas. Essa tentativa de ação financeira calculada, somada à falta de arrependimento visível, pode indicar sinais de desconexão afetiva e comprometimento na compreensão das consequências emocionais do ato.

Indícios que apontam para sofrimento psíquico grave

Embora não seja possível e nem ético fazer qualquer tipo de diagnóstico fora de um processo clínico, comportamentos como esse são amplamente estudados por pesquisadores da psicologia do desenvolvimento. Erik Erikson, por exemplo, fala do papel crítico da construção da identidade na adolescência. Quando essa fase é marcada por isolamento afetivo, ausência de espelhamento familiar e frustração sem contenção, a estrutura emocional pode ser gravemente afetada.

Nesse sentido, a ação do adolescente em Itaperuna não se apresenta como uma explosão impulsiva comum da idade, mas como um ato planejado, com sinais de dissociação emocional. Esse termo é utilizado na psicologia para descrever uma desconexão entre pensamento, afeto e percepção da realidade, geralmente associada a quadros de sofrimento psíquico intenso.

O papel da família e da rede de apoio na contenção emocional

A psicóloga Fernanda Falcomer, diretora de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, destaca que mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, agressividade ou frieza afetiva devem ser levadas a sério, não como fases comuns da adolescência, mas como possíveis indicadores de sofrimento emocional que precisam ser compreendidos e acompanhados.

“Toda experiência de violência tem potencial de causar adoecimento mental. O impacto vai variar conforme as características pessoais, mas os sinais estão sempre lá e precisam ser vistos”, afirma.

Essa percepção está em consonância com autores como Urie Bronfenbrenner, que destaca a importância dos contextos sociais como família, escola e comunidade na formação do indivíduo. Quando esses sistemas falham simultaneamente, o adolescente fica exposto a um vazio relacional que pode favorecer atitudes extremas, especialmente em personalidades em formação.

A tecnologia não é o vilão, o vazio relacional, sim

Muitos adolescentes encontram nos jogos online e redes sociais uma forma de conexão. Vygotsky já apontava que o desenvolvimento humano ocorre nas relações, primeiro com o outro, depois com o eu. Quando o ambiente real não oferece segurança afetiva ou comunicação significativa, o jovem busca isso em outros espaços, nem sempre seguros.

Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de compreender que ela não deve substituir o contato humano. Quando pais deixam de participar da vida emocional dos filhos, não sabem com quem eles conversam, o que sentem ou do que têm medo, perdem a capacidade de prevenir, acolher ou orientar.

Rede de apoio existe e precisa ser acessada

Casos como o de Itaperuna são extremos e complexos, mas podem servir como ponto de partida para reflexões e atitudes preventivas. A saúde mental na adolescência precisa ser acompanhada com escuta, presença e, quando necessário, intervenção profissional.

Alguns serviços públicos disponíveis

Adolescentro – SES/DF
Atendimento especializado para adolescentes de 12 a 17 anos.
📍 Site oficial da SES com contatos

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
Composta por UBSs e CAPS, realiza atendimentos contínuos em saúde mental.
📍 Veja unidades e informações

Samu Saúde Mental – 192
Serviço de emergência com orientação e apoio psicológico por telefone, 24 horas por dia.

CVV – Centro de Valorização da Vida
Apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188 ou pelo site.
📍 Acesse: www.cvv.org.br

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