“Mickey 17” e a Crítica ao Capitalismo: Bong Joon-ho Retorna com Ficção Científica Provocativa

Novo filme do diretor de "Parasita" reflete sobre ganância e desumanização em um mundo dominado pelo lucro

Danieli Aguiar
Por Danieli Aguiar 4 Min Leitura
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Antes mesmo de seu lançamento, Mickey 17 , primeiro filme de Bong Joon-ho desde o sucesso de Parasita , já estava no centro de debates financeiros. Produzido com um orçamento de aproximadamente US$ 100 milhões, o longo representa um grande investimento da Warner Bros., estúdio que busca reverter sua situação financeira. No entanto, essa discussão econômica antecede a avaliação artística da obra, um reflexo direto dos temas envolvidos pelo cineasta sul-coreano.

Bong construiu sua carreira explorando a desigualdade social. O Expresso do Amanhã apresentou um sistema de castas dentro de um trem, enquanto Parasita usou uma estrutura vertical para ilustrar uma divisão entre ricos e pobres. Agora, Mickey 17 traz uma abordagem igualmente crítica, sendo um raro exemplo de produção hollywoodiana peculiar, ousada e descompromissada com convenções comerciais. O foco da mídia nas finanças do projeto reforça a atualidade da mensagem do diretor sobre a obsessão pelo dinheiro – uma questão que, no universo do filme, se torna literal.

Uma distopia onde a vida tem preço

A história acompanha Mickey (Robert Pattinson), um órfão individual que encontra uma saída para sua situação ao aceitar a função de “Descartável” em uma missão colonizadora. Liderado por Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), um político fracassado, a expedição pousa no planeta gelado Niflheim após quatro anos de viagem. A tarefa do Mickey é simples: antes de se aventurar em ambientes hostis, ele transfere sua consciência para um banco de dados. Sempre que morre, um clone seu é impresso, pronto para continuar o trabalho.

DIVULGAÇÃO Warner Bros

O processo de clonagem é retratado de forma propositalmente mecânica, lembrando uma impressora defeituosa. Essa abordagem humorística ressalta a principal crítica do filme: a transformação do ser humano em mercadorias. Cada nova versão do Mickey representa um ciclo de exploração.

Poder, ganância e controle

As metáforas de Bong são diretas. O personagem de Ruffalo combina traços de Donald Trump e Elon Musk, enquanto a religião mencionada no filme alude a vertentes fundamentalistas do cristianismo. Os conflitos entre os colonizadores e os habitantes nativos do planeta, apelidados de “Rastejadores”, refletem as invasões imperialistas da história real.

No entanto, o que move a trama é o dinheiro. Kenneth Marshall deixa escapar a verdadeira natureza de sua missão ao se referir à igreja como “empresa” e ao abandonar seus princípios políticos para lucrar com a colonização. Mais do que racismo ou misoginia, Mickey 17 denuncia a ganância e suas consequências.

Apesar de algumas falhas no desenvolvimento de tramas secundárias – como um motivo que surge sem preparação adequada –, o longo mantém sua força ao explorar a jornada de Mickey. Robert Pattinson entrega uma performance que diferencia cada versão do personagem. Enquanto Mickey 17 está inseguro, Mickey 18 demonstra revolta e escancara as injustiças do sistema que o mantém preso nesse ciclo. A atuação tragicômica de Pattinson humaniza o protagonista, impedindo que ele se torne apenas um símbolo ou peça de um jogo de ficção científica.

Ao transformar Mickey 17 em uma reflexão sobre a desumanização promovida pelo capitalismo, Bong Joon-ho reafirma seu olhar crítico e humanista. No final, o filme nos lembra que Mickey não é um número – ele é uma pessoa. Nesse sentido, a verdadeira sorte não é a decisão da Warner em financiar esse projeto, mas na oportunidade do público de vivenciar mais uma obra provocativa do cineasta.

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